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PERVERSÃO ORIGINAL, A RAIZ DE TODO MAL.

(Original Perversion, the root of all evil.)

David Jansen Pinheiro Pecis

 

Psicólogo, Licenciado em Psicologia, Psicanalista,

Pós-Graduado em Teoria Psicanalítica e em Saúde Mental

Professor Substituto do Curso de Graduação em Psicologia

da Faculdade de Ciências Médicas e Paramédicas Fluminense.

 

Endereço para correspondência: David Jansen Pinheiro Pecis

ONP - Ordem Nacional dos Psicanalistas, Rua Pracinha Wallace Paes Leme,

1864, Centro, Nilópolis, RJ, CEP: 26525-045.

 


 

Resumo

O presente artigo visa apresentar resultado da análise psicanalítica particular do autor a cerca dos acontecimentos descritos no livro de Gênesis, capítulos 2 e 3, que descrevem a epopéia do pecado original e, que segundo a tradição cristã, apresenta o momento em que o mal entrou no ser humano, ou seja, quando este comeu do fruto proibido.

Palavras chave: Perversão Original, Sexo Anal, Fruto Proibido.

 

Abstract

This article presents results of particular psychoanalytic analysis of the author about the events described in the book of Genesis, chapters 2 and 3, which describe the epic and the original sin, which according to Christian tradition, presents the moment when evil entered in humans, ie, when he ate the forbidden fruit.

Keywords: Original Perversion, Anal Sex, Forbidden Fruit.

 


 

O objetivo deste trabalho é fazer uma releitura do conceito bíblico de “pecado original”, atribuindo-lhe interpretação psicanalítica particular, tal como Freud fez em sua obra “Moisés e o Monoteísmo” sem, contudo, haver em mim qualquer intenção ou desejo de me assemelhar ao grande mestre.

O livro de Genesis relata no capítulo 2, versículo 17, Deus, que aqui será compreendido como personificação do SUPEREGO, proibindo o ser humano de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Embora não haja qualquer especificação sobre qual era esse tal fruto proibido, nem no livro de Genesis nem em nenhum outro livro que compõe a Bíblia Sagrada dos Cristãos, a tradição popular cristã considerou que foi uma maçã que Eva persuadiu Adão a compartilhar com ela. Talvez essa escolha deva-se ao fato de que no Latim, a palavra "maçã" e "mal" derivam-se do mesmo radical (malum pode significar "uma maçã" ou "um mal, uma desgraça"), isso explicaria porque a maça pode ter se tornado o "fruto proibido". De toda forma, é bem sabido que a maçã está, desde há muito tempo, atrelada a idéias de desejo sexual[1], seja nos romances, nos contos, nas artes, na literatura e mesmo na mídia atual.

Podemos supor, com base na lógica, que Adão e Eva, personagens centrais dessa epopéia, já haviam tido filhos antes do episódio da maçã, pois Deus, ao distribuir os castigos aos envolvidos na desobediência à sua proibição, condenou a mulher com a multiplicação de suas dores de parto (Gênesis 3:16) o que nos permite ao menos conjecturar, que antes ela dava a luz sem dor ou com pouca dor.

Já sobre a perversão em si, julgo ser importante iniciar minha explanação apresentando o significado da palavra, que se origina do termo latino “pervertere” e que corresponde a ação ou efeito de perverter, corromper ou alterar algo.

Em Psicanálise “perversão” é um termo usado para designar um desvio do desenvolvimento normal da personalidade, por parte de um indivíduo (ou grupo), que tem modificado a resposta natural de qualquer dos comportamentos humanos considerados normais para um determinado grupo social.

Os conceitos de normalidade e anormalidade, no entanto, sofrem interferências do tempo e do espaço e podem ser alterados em função de inúmeras circunstâncias, mas independente disso, um indivíduo que está inserido no contexto de uma sociedade e age de maneira contrária as normas estabelecidas por essa sociedade é um indivíduo que se desvia da norma, logo, é considerado perverso ou pervertido.

Sabemos ainda, por intermédio das contribuições psicanalíticas, que uma atitude clássica dos perversos é a de buscar satisfazer seus desejos sem se importar se a satisfação deles vai prejudicar a outrem, o que caracteriza um comportamento bastante egoísta e egocêntrico, colocando tudo e todos na posição de objetos capazes de lhe proporcionar prazer. Essa característica de satisfazer unicamente a si mesmo, sem se preocupar com o outro é tão marcante na conduta do perverso, que Freud questiona de forma bastante pertinente em nota de rodapé, se até mesmo a heterossexualidade, quando praticada com exclusividade, não seria também classificável como perversão.

Com relação a perversão no contexto da sociedade, FOUCAULT (1984) afirma que “historicamente, perversões de conceitos morais foram atribuídas a perturbações de ordem psíquica, que dariam origem a tendências afetivas e morais contrárias às do ambiente social do pervertido”.

Ora, seres humanos são animais. Racionais é verdade! Mas nem por isso perderam suas características animalescas. Logo, se observarmos os animais em suas práticas sexuais, sobretudo os mamíferos, grupo do qual fazemos parte, é possível observar o ímpeto reprodutivo em seu sexo, mesmo no caso daqueles que mais copulam, a exemplo do leão, que pode atingir a média de 140 coitos num único dia. Essa conduta está totalmente vinculada às questões de ordem natural de preservação da espécie. O sexo dos animais ocorre respeitando a natureza da fêmea em seu período de cio e não como uma atitude casual e descompromissada de auto-satisfação e busca pelo prazer como é o caso do sexo humano.

Freud nos ajuda a compreender porque isso ocorre, pois, graças às suas contribuições, sabemos que o ser humano é perverso por natureza, a criança foi por ele classificada como um ser “perverso polimorfo”, isso significa, entre muitas outras coisas, que mesmo quando fazemos algo para satisfazer a outrem, na verdade, lá no fundo o que estamos procurando é satisfazer a nós mesmos. Quando um homem corteja uma mulher e dá carinho a ela, na verdade ele o faz para conseguir dela o prazer que ela pode lhe proporcionar. Quando fazemos caridade e ajudamos pessoas, fazemos em busca do prazer e da satisfação que isso pode nos proporcionar. De modo que, tudo que o ser humano faz é em resposta a uma necessidade única de sentir prazer casual, descompromissado. Mas ele não definiu onde ou quando isso passou a ser dessa forma, talvez por não ter sido de seu interesse compreender a origem de todo mal.

Tendo lançado um olhar analítico sobre esta questão, a questão que ecoa em todo meu ser ansiando por uma resposta é: “Se os animais não conhecem a maldade e nós somos animais, quando de fato nos tornamos perversos?” ou em outras palavras, “Quando foi que o animal mamífero humano deixou de copular por necessidades fisiológicas e de manutenção da espécie e passou a fazer sexo apenas para satisfazer sua incansável busca pelo prazer?”

Em minha análise particular, o episódio descrito em Gênesis, abordado anteriormente neste trabalho, pode conter as respostas a essas questões.

Quando a serpente afirma que no dia que os seres humanos comecem do fruto proibido, seus olhos seriam abertos e seriam conhecedores do bem e do mal (Gênesis 3:5), ela esta dizendo que eles passariam a perceber o mundo de outra maneira. Que eles não seriam mais os mesmos e que seus sentidos sofreriam uma significativa alteração da maneira como sentiam o mundo e se relacionavam com ele. Em outras palavras, a ingenuidade comum aos animais no que se refere ao sexo já não existiriam mais quando comecem a maçã e já não seriam mais apenas bons, mas passariam a conhecer o mal.

Mal é um conceito humano, pois os animais não são maus, eles matam pra se alimentar ou pra se defender... Eles não matam pelo prazer de ver a presa agonizando ou qualquer outro prazer mórbido que uma mente humana pervertida possa sentir com a morte.

O relato do livro de Gênesis sugere que antes da perversão original, nós éramos assim, exatamente como todos os outros animais, mas, comemos a maça e tudo mudou. Nossos olhos se abriram e com malícia e vergonha percebemos que estávamos nus (Gênesis 3:10).

O sexo que até então era algo natural e estritamente fisiológico ganhou outro status, outras configurações. O sexo sem vergonha dos animais já não era mais o nosso.

Essa atitude de comer a maçã modificou nosso psiquismo e nossa natureza. Antes éramos ingênuos e bons, depois nos tornamos maliciosos e perversos polimorfos.

A grande responsável por esta mudança tão significativa da espécie humana foi sem dúvida a aqui chamada “perversão original”. Mas que atitude tão contrária a norma foi essa capaz de ocasionar tão significativa degeneração (perversão)? A desobediência em comer uma fruta que foi proibida? O desejo de ser igual a Deus?

Claro que não! Sobre este tema, nenhuma das explicações teológicas convencionais se mostraram capazes de prestar tais esclarecimentos. Foi percebendo isso que decidi lançar um olhar psicanalítico sobre o assunto e cheguei a uma conclusão impressionante.

A de que a “perversão original” na verdade foi o sexo anal, sendo a maçã o simbolismo das nádegas e ânus.

Inicialmente pode parecer um grande absurdo, mas vamos analisar algumas imagens que irão auxiliar na compreensão dessa relação.

maca

Imagem 1: Representação arquetípica da maçã.

 

bundas

Imagem 2: Capa de LP apresentando 3 bundas femininas.

 

Usando uma técnica simples de sobreposição de imagens poderemos observar melhor a associação.

macas

Com a perversão original, a bunda passou a ser percebida com a mesma suculência de uma maçã, que, por sua vez, desperta um grande desejo de ser “comida”.

O comer a maçã simboliza a atitude primaz da perversão original, ou seja, o sexo anal.

Tendo considerado plausível a idéia de minha interpretação particular, onde comer a maçã representa a pratica do sexo anal, precisamos agora analisar a significativa alteração de caráter pulsional que envolve tal prática, afinal ele não é um sexo para reprodução, mas exclusivamente para satisfação da pulsão libidinal.

O animal mamífero humano após ter praticado o sexo anal, perverteu (no sentido de alterou) a forma natural com que os animais praticam o sexo, que agora não tinha mais relação com a preservação da espécie, mas com a satisfação egóica e por vezes narcísica de sua libido.

Isso significa dizer que quando o sexo anal entrou na humanidade ele promoveu a mais significativa mudança que já ocorreu em nossa espécie. A mudança que nos fez passar a ver nossos corpos com malícia, compreendendo-os como fonte inesgotável de prazer.

Quando os cristãos afirmam que a maldade entrou no mundo através do pecado, eles podem ter certa razão, se essa crença for fundamentada segundo o conceito de perversão original, pois, afinal, foi a partir do momento em que passamos a ver o outro como objeto de prazer, que passamos a reproduzir toda sorte de práticas parafílicas, perversas e pervertidas, o que de certo modo pode ser compreendido como maldade, afinal, esta necessidade constante, recorrente e gradativa de busca pelo prazer, não raramente é satisfeita mesmo que venha causar danos à outrem.

Sodoma, Gomorra, Cidades circunvizinhas, Grécia, Roma e mesmo na nossa Sociedade Brasileira, onde a bunda é tão valorizada, reproduziram e continuam a reproduzir este comportamento originário ancestral de maneira inconsciente, assim como reproduzimos outros comportamentos explicados com base em alguns conceitos psicanalíticos como Narcisismo e Complexo de Édipo.

Muito mais há de ser estudado sobre o tema “Perversão Original”, algo que pretendo continuar a fazer por todo o resto de minha vida, mas acredito que a publicação desse primeiro trabalho seja sem dúvidas um marco inicial para a construção e solidificação deste novo conceito que pode vir a integrar o saber psicanalítico contemporâneo, e, que muito pode ajudar-nos a compreender melhor a nossa espécie, nossas sociedades e nossas relações de modo geral.



[1] Macrone, Michael; Tom Lulevitch. Brush up your Bible!. [S.l.]: Random House Value, 1998.

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